Com muita frequência alguém me pede indicação de filme. As razões, obviamente, são as mais diversas possíveis – “queria algo que me fizesse refletir”, “queria diversão sem compromisso”, “queria um filme para ver com a minha namorada” e por aí vai. O problema é que eu sempre tive muitas dificuldades em categorizar o que vejo dessa forma, cabendo muito mais ao momento a significação de determinado filme do que uma escolha prévia para a situação. Talvez por isso eu seja capaz de ver O virgem de 40 anos para refletir e Janela Indiscreta em uma noite romântica (tá, estou exagerando, mas vale a idéia).
Porém, como as pessoas gostam mesmo de ter definições como essa, resolvi me dar ao trabalho de pensar em quais filmes eu elencaria se fosse feita uma divisão assim. Por isso, em vez de uma resenha, desta vez farei cinco indicações, com pequenos comentários ao lado. Daí cabe a você, caro leitor, assistir cada um e julgar se o que eu disse foi apropriado ou não. Prometo tentar não ser muito insano na seleção. Vamos lá?
Categoria “Filme para refletir sobre a própria existência”

A Partida (Departures)
Diretor: Yojiro Takita
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2009, é para chorar até não poder mais. A história, de uma beleza peculiar, mexe com qualquer um, apesar de o tema central ser muito preso à cultura oriental – o protagonista, músico, desiste de seu sonho de viver disso e passa a trabalhar numa funerária que faz o (emocionante) ritual de preparação de corpos para enterro. No caminho, irá embarcar em um processo de auto-conhecimento e de descoberta comoventes. É o cinema japonês, de ritmo pausado e atuações sinceras, provando que a sensibilidade é comum a todos nós. Deixe-se levar também pela trilha sonora, impecável. Talvez esta seja a menor resenha de todas que virão aqui; no entanto, acho que não há muito mais o que dizer. Veja e entenda. Só não é recomendável para dias tristes, por motivos bem óbvios.
Categoria “Essa é a minha história de amor”

Tudo Acontece em Elizabethtown (Elizabethtown)
Diretor: Cameron Crowe
Minha querida editora Camille vai me matar por ter mantido este filme na lista – segundo ela, é um saco –, mas prefiro acreditar que, quando ela viu, estava em um dia ruim. Afinal, Cameron Crowe não costuma errar (vide clássicos como Quase Famosos e Singles – Vida de Solteiro), e a história aqui tem todos os ingredientes de um clichê romântico, com o cuidado de manter os pés na realidade. Assim, Drew Baylor (Orlando Bloom) e Claire Colburn (Kirsten Dunst) encontram-se, apaixonam-se e vivem uma relação sincera, cuja maior recompensa acaba vindo de uma forma completamente inesperada. Os mais atentos vão reparar que há um ponto de contato no filme da primeira categoria e este aqui – juro que não foi proposital a escolha. Recomendável para quem ainda idealiza o amor.
Categoria “Preciso me esquecer da vida um pouco”

Pantaleão e as visitadoras (Pantaleón y las Visitadoras)
Diretor: Francisco José Lombardi
Adaptado do livro homônimo do escritor Mario Vargas Llosa, é uma comédia com todos os pré-requisitos básicos e mais alguns ingredientes absurdamente saborosos. O protagonista, Pantaleão Pantoja, é um militar encarregado de levar um grupo de prostitutas pelos rios para saciar o desejo dos soldados peruanos que ficam meses sem contato com mulheres – que virão a ser as tais visitadoras do título. No entanto, o pobre capitão verá sua excelente conduta e seu casamento ficarem por um fio quando, ao selecionar uma das moças para a missão, conhece uma chamada Colombiana, por quem se apaixona. Como se não bastasse o enredo hilariante, os personagens são divertidíssimos, coroados por atuações memoráveis. Cinema latino-americano de alta qualidade e pouco conhecido, que vale a conferida. Recomendável para um domingo a tarde entediante.
Categoria “Como era gostosa a minha adolescência”

Superbad – É Hoje (Superbad)
Diretor: Greg Mottola
De fato, o que importa aqui, mais do que o diretor, é destacar o trabalho de Seth Rogen como roteirista, um dos gênios do humor adolescente atual. Com várias pontas biográficas, a história dos dois amigos de infância que, prestes a se separarem por conta de suas respectivas entradas na faculdade, é um mergulho direto nos bons tempos da juventude (sim, com os meus 30 anos já entrei nessa fase de ficar buscando memórias do passado). Todos os dramas – e diversões – estão lá: meninas lindas e inacessíveis, bebidas alcóolicas proibidas, festas, confusões e… e tinha algo mais nessa época? Se tinha, com certeza Superbad não deixa de abordar. Como se não bastasse, ainda traz à vida um personagem antológico, o grande Foggel, mais conhecido como McLovin – um orgulho para todos os nerds que sonham em vencer na vida social. É para ver, rever e não conseguir evitar de seguir até o fim quando pegar pela metade em uma reprise qualquer de televisão. Recomendável para… qualquer momento, ora. Ainda tem dúvidas? Mas acho que as meninas tendem a não se identificar, é bom dizer.
Categoria “Peraí, acho que perdi alguma coisa”

Donnie Darko (Donnie Darko)
Diretor: Richard Kelly
Para quem adorou Efeito Borboleta, um filme de verdade. Esqueça aquela história bobinha vivida pelo eterno Kelso (vai dizer que nunca viu That 70's Show?), pois aqui o que vale são referências às teorias de Stephen Hawking e Roberta Sparrow sobre a possibilidade de viagem no tempo, discussões sobre o controle da existência e por aí vai. A trama, soturna e complexa, coloca no centro de tudo o esquisito personagem-título, vivido por um jovem e ainda desconhecido Jake Gyllenhall (Brokeback Mountain, Brothers) com maestria. Um coelho gigante, uma turbina de avião que cai, uma menina linda, alucinações, realidade esquisitas, profecias, vida, morte, tudo se mistura. E você sai com a sensação de que não entendeu quase nada, mas achou absurdamente maneiro. Não dá para deixar de dizer que a trilha sonora é espetacular, com uma versão dramática de Mad World, clássico absoluto do duo pop Tears For Fears, Echo & The Bunnymen (The Killing Moon) e Joy Division (Love Will Tear Us Apart), por exemplo. Recomendável para quem gosta de entender tudo, não entende nada e sai dizendo por aí que o filme é uma bosta. Afinal, a última parte da sentença anterior não vai colar pelo menos dessa vez…
(Este post foi escrito por Marcelo Caldas exclusivamente para RevistaInnovative.com)




