Nara Vidal é casada e tem uma filha. Sua história começa quando cursou a faculdade de Letras (Português / Inglês) na Universidade Federal do Rio de Janeiro e acabou indo morar em Londres, realizando um sonho.
"Com pouco dinheiro para viajar, Nara optou pelo trabalho de nanny e assim trabalhou por alguns anos. A partir de experiências escreveu o livro Viajar sem dinheiro e gafes internacionais que já é um sucesso e vale muito a pena ser lido.
Moradores do Rio de Janeiro, fiquem atentos! Em fevereiro de 2010 ela vem para uma noite de autógrafos, não vamos perder, né?
Ela é, agora, nossa entrevistada da semana!

Revista Innovative Esse desejo de morar em um país que não fosse o Brasil é antigo? Como foi decidir isso e por a mudança em prática de fato?
Nara Vidal Desde que me lembro da minha existência, recordo-me do interesse pelo que era de fora. Mas sempre tive particularmente um interesse pela Europa. Tive penpals, aqueles amigos de correspondência por anos, pois na época não tinha email! Mas desde cedo, fiz a escolha de não permanecer no Brasil para sempre. Daí, de uma forma ou outra, construí minha saída de lá. Mas volto sempre que posso, pois lá estão minha família, aqueles amigos para os quais você não precisa justificar nada, pois lhe conhecem pelo avesso, enfim, várias referências. É importante revisitar lembranças através de pessoas e lugares queridos, para termos sempre referências fortes.
RI Mudar de cidade às vezes já é muito complicado, quais foram as dificuldades encontradas quando acabou optando por se mudar para Londres?
NV Eu sei que tive e tenho várias dificuldades. No entanto, enquanto passo por elas não as identifico como tais, assim o caminho fica mais agradável. Hoje em dia, penso no que fiz, pelo que passei e me assusto. Fico pensando nos meus pais, como devem ter sofrido com a filha que tinha rodinha nos pés, como dizia minha mãe. Mas a meta de ir morar na Inglaterra era tão forte e clara que mesmo com as dificuldades que eu já previa nada iria mudar a minha determinação. Lembro-me da dificuldade da língua. Eu cursei Letras numa das melhores universidades do Brasil, a UFRJ e estudei literatura inglesa. Apaixonei-me pela língua, pela literatura e pelo desconhecido. Concluí dois excelentes cursos de inglês no Brasil e mesmo assim, no meu primeiro dia em Londres, fui parar no norte da cidade depois de pedir informações de como chegar no sul! Londres é uma mistura tão espetacular de raças e culturas que os sotaques vêm de várias formas e logo de cara houve um certo desespero em relação ao idioma.
RI Você disse que preferiu trabalhar como babá para ter como se dedicar a outros projetos e estudos. Sobre o que eles se tratavam?
NV Apesar de respeitar imensamente o trabalho de nanny e aupair, eu jamais pensei em seguir uma carreira cuidando de crianças. Mas era a melhor forma de morar, ganhar dinheiro e gastar pouco. No entanto, meu plano era fazer um mestrado na terra do Shakespeare! Tinha esse sonho desde minha época de faculdade. Meus pais sempre expressaram muito orgulho quando eu e minhas irmãs obtínhamos sucesso nos estudos. Minha mãe sempre foi um dos maiores incentivos para eu jamais fechar os livros, os olhos e os ouvidos e aprender alguma coisa todo dia. Ela viveu sua vida assim, aprendendo a cada dia e generosamente passando adiante o que via. Além de estudar, viajar também estava sempre nos planos. De novo, minha mãe foi um estímulo. Ela era professora de geografia e não teve oportunidades de viajar quando jovem. Daí eu viajava e via o mundo a quatro olhos: os meus e os dela. No final das contas, concluí um mestrado, não em Shakespeare, mas em Artes, o que já me satisfaz.
RI Vivendo em uma cultura tão diferente pode-se dizer que tenha aprendido muitas coisas, não? Qual a diferença mais marcante e a influência que ela exerceu na sua vida?
NV Nós brasileiros somos muito orgulhosos da fama de passionais. Carregamos este conceito como uma qualidade. Os ingleses entendem reações passionais no papel. Na hora em que agimos de forma tempestuosa, eles se assustam, pois são muito mais práticos e sensatos! Mais práticos e sensatos que eu, certamente!
RI O livro “Viajar sem Dinheiro & Gafes Internacionais” se trata de experiências engraçadas vividas por você enquanto moradora de casas de família? Pode nos contar uma delas que não está no livro?
NV O livro relata histórias que aconteceram comigo e com meninas que conheci. Uma coisa que aconteceu com uma moça brasileira que eu conheci e que me fez rir, foi quando a patroa dela e o marido chegaram em casa, escolhendo convites, selecionando música e buffet. A brasileria, a nanny, veio toda animada perguntar de quem era o aniversário. Foi quando a patroa respondeu-lhe que não estavam comemorando aniversário de ninguém, e sim organizando o funeral da avó. A brasileira ficou de queixo caído, pois os ingleses fazem um verdadeiro evento com muita comida, música, convidados, e o que mais houver, quando alguém morre. Eu também sempre achei esse costume bastante estranho, além de levarem às vezes até um mês para enterrarem o morto.
RI Qual a maior dificuldade de lançar um livro e elaborar todo um marketing estando num país distante?
NV A questão de estar na Inglaterra não é o problema. O problema é lançar um livro e ponto. Existe a facilidade da internet e muita divulgação e marketing podem ser feitos de longe, online. Mas as dificuldades em lançar um livro pela primeira vez se repetem onde quer que você more. Não dá para contar nem mesmo com amigos e parentes, porque de uma forma, quem te conhece às vezes não acredita que tenha sido capaz de escrever algo que mereça o tempo e a leitura (e os míseros 22 reais!) A maioria das vendas do meu livro foi para pessoas que não conheço. Isso é muito bom, porque prova que não houve compra por consideração ou obrigação. Houve gente que viu o livro, leu a sinopse, a contra-capa e decidiu comprar. Essa é a melhor sensação do mundo. Quem escreve quer ser lido. É inevitável. Uma vez escritos os pensamentos, eles voam e passam a ser de quem lê e não são mais seus. O preconceito do leitor é porém, um dos maiores obstáculos. Com isso eu refiro-me tanto aos leitores que só se interessam por livros estrangeiros, quanto às pessoas que conhecem o escritor e são incapazes de dar uma força. O trabalho é árduo, é difícil, mas eu não tenho a menor intensão de parar de escrever. Estou apenas começando. Além disso há a grande dificuldade de distribuição. Ela é praticamente inexistente se você não consegue uma editora tradicional para publicar seu livro. Mesmo assim, não pense que seu livro vai ficar lá na entrada da livraria porque não vai. Acho até justo que não fique. A frente das livrarias pertence aos grande nomes que um dia estavam perdidos nas prateleiras dos fundos, portanto… sigamos! Sigamos sem medo e com insistência.
RI Acredita que a morte de sua mãe acabou sendo uma motivação para fazer desse projeto um livro e publicá-lo? Teve apoio de outras pessoas?
NV Perder a minha mãe foi perder o sentido de fazer coisas e ter para quem contar. O livro serviu para contar histórias. Não tive o apoio de ninguém, até porque eu escrevi o livro em silêncio. Minhas irmãs sabiam, mas fiz tudo e no final mostrei. Este livro e qualquer outro livro meu, é sempre dedicado à minha mãe. Ela escrevia também e muito, mas muito melhor que eu!
RI O livro é feito de crônicas sobre a vida de pessoas que vão para o exterior e conseguem trabalhos similares aos seus. Pensa que, apesar dessa característica, ele pode servir de ajuda para quem está passando por situações semelhantes?
NV Absolutamente! Acho que qualquer pessoa que pense em viajar, que tenha curiosidade na vida lá fora, no dia-dia, nas casas das famílias européias deve ler o livro. Acho que o livro é sim interessante porque joga uma luz diferente na vida lá fora. Com tudo que tem de bom e com tudo que tem de ruim. Além de ler o meu livro, sugiro que as pessoas leiam guias de viagem formais e a literatura local, que particularmente ajuda na compreensão da história e cultura de um país.
RI Por mostrar algumas situações um tanto absurdas (como optar por deixar a babá seis horas no trem para pagar menos) acha que também adquire um tom crítico, que pede mudanças?
NV Todos temos um limite. Mas o dia do limite coincide com o dia da conveniência. Eu deixei de trabalhar como nanny quando me casei, fui ser dona da minha casa e consegui um emprego no centro financeiro de Londres. Naquela época, estava farta da vida de nanny e não poderia mais suportá-la… É claro que se estas mudanças não tivessem acontecido naquele momento, meu limite de tolerância em relação à profissão teria se esticado mais um tempinho! Tudo é uma questão de conveniência, certo?
RI O livro foi lançado na Bienal do Livro em São Paulo, já pode ser encontrado em livrarias de todo Brasil? É possível comprá-lo via internet?
NV O livro foi lançado na Bienal, mas eu não pude ir. Assim sendo, foi um lançamento ausente, virtual. Mas a partir dalí, o livro foi distribuído e está disponível em todas as maiores livrarias do Brasil. Além disso está também online em vários sites de compras. Mas em fevereiro eu vou ao Brasil pela primeira vez lançar o livro. Vou estar no Rio, na Saraiva do Botafogo Praia Shopping dia 10 de fevereiro. Aproveito para convidar todo mundo!


