Matéria escrita em 14/07/10, por Innovative
Filmografia | 6 Comentários

Título Original Toy Story 3
Gênero Animação
Duração 103 minutos
Ano de Lançamento 2010

"Nesta terceira animação da série, Andy vai para a faculdade e seus antigos brinquedos são doados a uma creche. Apenas Woody ficará com seu dono. Woody, no entanto, não abandona seus amigos e precisará, juntamente com Buzz e cia., se adaptar ao novo lugar e aos novos “donos” enquanto tentam se manter juntos."

Resenha

Por Marcelo Caldas
escritor, músico e professor, exclusivamente para Revista Innovative

Esta resenha, acima de tudo, é uma crônica pessoal. Não faria sentido fazê-la de outra forma.

Quando o primeiro filme da franquia Toy Story entrou em cartaz, próximo ao Natal de 1995, eu cursava o 1o ano do Ensino Médio e vivia às voltas com a pseudo-maturidade dos 16 anos. Inclusive, lembro-me bem de, àquela altura, ir ao cinema com o pretexto de conferir a “tão falada nova técnica de animação” na qual a Disney estava se aventurando, e não pela fofa historinha de brinquedos, coisa que não cabia para alguém que estava tentando ser cult e descobrindo todo um mundo de Woody Allen, Stanley Kubrick, Alfred Hitchcock e afins.

Foi então que o cowboy Woody (simpatia imediata pelo nome?) apareceu na tela. Para quem tantas vezes brincou de Forte Apache, impossível não voltar no tempo. Depois, o astronauta Buzz Lightyear entrou em cena, rememorando os sonhos infantis de conquista do espaço. E a eles se seguiram tantos e tantos brinquedos, alguns presentes ao longo de tantos anos de criança, como o Sr. e a Sra. Batata, que em 30 minutos eu já estava de guarda baixa, sorrindo e vibrando com tudo que acontecia ali. As personagens eram tão humanas, tão reais, tão vívidas, que, ao final, só conseguia pensar em ver de novo e em desejar que houvesse mais.

Minhas preces, porém, foram atendidas apenas 4 anos depois. De novo, estávamos estrategicamente perto do Natal, e eu havia feito recentemente meus 20 anos. Era universitário, tinha um emprego e minha vida caminhava para a fase adulta sem sobressaltos. Sendo assim, não precisava de desculpas para comprar meu ingresso e ver Toy Story 2. O engraçado é que, talvez por não estar tão próximo da infância quanto na primeira vez, reagi com mais frieza ao filme, ainda que satisfeito de ver uma história tão bem contada e os mesmos brinquedos-vivos que me fascinaram antes sendo capazes de criar toda uma nova legião de fãs. Com o filme encerrado, parecia que se encerrava também um ciclo de rememoração, e crescer era tão inevitável quanto aquele ponto final.

Muito por conta disso, não dei muita atenção ao anúncio de que um terceiro filme da série estava em produção. Parecia-me que, 10 anos depois de terem feito o segundo, as chances de errarem a mão ou forçarem a barra eram grandes. Além disso, eu mesmo não me via às voltas com animações que tratassem de infância, preferindo aquelas que abordam temas mais “velhos”, como as incríveis Wall-e e Up – ambas merecedoras de todos os louros que receberam e ainda recebem por aí. Bastou, no entanto, que a última parte da trilogia entrasse em cartaz para que uma vontade imensa de conferir o que os produtores tinham feito me tomasse.

A sinopse, preciso dizer, era bastante convidativa: Andy, agora um adolescente, estava prestes a entrar na universidade e precisava decidir o que fazer com seus pertences que não iriam com ele, dentre os quais encontram-se seus queridos brinquedos. Por descuido de sua mãe, o saco em que tinha os colocado para que fossem guardados no sótão acaba indo parar por instantes no lixo e depois em uma creche onde acontecerá a maioria das aventuras dos bonecos. Lá, sempre tendo como foco a relação entre Woody, Buzz e o próprio Andy, valores como amizade, companheirismo, respeito e solidariedade serão abordados de forma lúdica e densa, estimulando reflexões que, se não surgem logo ao primeiro contato, vem à mente a cada conversa posterior ao filme.

Sobram, claro, momentos engraçados – como absolutamente TODAS as aparições do boneco Ken –, mas, para quem mergulha no ponto principal da trama, a tristeza que emana de um filme que fala a respeito de como é duro crescer e ter que abandonar a infância é o prêmio a ser conquistado na cena final, de uma beleza como só as animações, ultimamente, parecem ser capazes de produzir. Apenas um dos vários motivos que tornam Toy Story 3 bem mais do que um simples “fechamento de luxo” para uma franquia de extremo sucesso. É filme para se ver sem ressalvas, de coração aberto, sem o peso do tempo turvando o seu olhar.

Não pude escapar à ironia do destino. Hoje, com as supostas certezas dos 30 anos, ao sentar para ver Toy Story 3, estava no mesmo cinema de uma década e meia atrás para, sem medo, entrar em contato com toda uma época que às vezes, adultos-caretas que nos tornamos, relutamos em lembrar. E, quando os créditos – infelizmente – subiram, senti saudades de quando as decisões da vida resumiam-se a guardar ou não no armário os brinquedos que pareciam não caber mais na minha estante. Já em casa, olhei meu Buzz Lightyear na mesa ao lado da cama e sorri, com lágrimas nos olhos, torcendo para que o Andy que somos todos nós nunca precise crescer tanto assim.